EU... Eu, eu mesmo... Eu, cheia de todos os cansaços, Quantos o mundo pode dar. — Eu... Afinal tudo, porque tudo é eu, E até as estrelas, ao que parece, Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... Que crianças não sei... Eu... Imperfeita? Incógnita? Divina? Não sei... Eu... Tive um passado? Sem dúvida... Tenho um presente? Sem dúvida... Terei um futuro? Sem dúvida... A vida que pare de aqui a pouco... Mas eu, eu... Eu sou eu, Eu fico eu, Eu...(Fernando Pessoa)

domingo, 25 de novembro de 2007

MARIDOS DAS INTERNAUTAS ANÔNIMOS



MARIDOS DAS INTERNAUTAS ANÔNIMOS



"Sempre incentivei minha esposa,
como todos, a entrarem na "era do computador".
Ela resistiu muito.
Computador era bicho feio,
perigoso, monstruoso.
Mas acabou aceitando.
No início foi ótimo.
Até que um dia abençoado,
ela começou aperfeiçoar-se,
fazer cursos,
entusiasmar-se cada vez mais,
equipar melhor a máquina, multimídia, etc.
Em seguida veio a conexão à Internet.
Aí começou a preocupação
com a conta telefônica.
Piorou com as salas de bate-papo.
A maioria em vão, diga-se de passagem,
para jogar conversa fora, mas fora mesmo.
Comecei a ser um ser estranho,
pois não era virtual.
Para diminuir a conta do telefone,
veio a solução como faziam muitos outros:
conectar sábados, após às 14 horas,
domingos e feriados. Até aí tudo bem.
O duro foi quando não podia mais
ficar a semana "toda" sem falar
com os "maiores" amigos.
Solução: conexão após às 24 horas.
Passei a dormir tarde e depois sozinho.
Felizmente para mim,
as salas de bate-papo começaram a cansar,
encher o "saco" mesmo e ela foi se afastando,
até desistir delas.
Evoluiu, descobriu, aprendeu e começou
com o "ICQ", o "ODIGO", MSN, YAHOO e o "COMVOCÊ".
O papo foi limitado aos amigos mais chegados.
Pensei: "agora vai diminuir
o tempo de conexão, papo com menos gente".
Puro engano.
O menor número nesse caso,
é inversamente proporcional ao tempo.
É até lógico, conclui.
Com amigos se conversa mais.
Agüenta... Como fazer?
Ouvimos sobre a existência de conexões
com taxa mensal fixa, que permitem
conexão 24 horas por dia.
Pelo menos podemos saber
o valor da conta antecipadamente.
Engano.
Até hoje estamos esperando as tais
chegarem à nossa cidade
mas tenho esperança que chegarão
antes de falirmos.
Enquanto tentamos baixar a conta,
continuamos, eu e todos os maridos
de esponautas (esposas internautas),
tentando comunicarmo-nos com elas,
sem estarmos conectados à internet
e em nada mais.
Inventaram o VELOX na banda larga
graça ao bom Deus, mas veio o aluguel
do modem e outras tantas taxas.
Eu já consigo algumas respostas
pois quando tento falar com ela,
ouço, depois de algum tempo,
sem me olhar e nem me dar atenção:
"péra um pouco".
Fico feliz, pelo menos é uma resposta,
até com algum conteúdo.
Antes era "hum hum",
que servia para qualquer pergunta.
Depois de tanto eu imitá-la e criticá-la,
mudou para "péra".
Agora pelo menos tenho
resposta mais convincente.
O tal do "péra um pouco",
mesmo sendo resposta padronizada
para qualquer pergunta,
dá uma brecha para minha imaginação.
Às vezes sinto um "pééééra" romântico,
outras vezes, o "um pooouco" até sensual.
Fico pensando qual será
a próxima maneira de responder.
Talvez "à mineira", o "sei não",
ou então "à baiana", o "ééééé".
Bom, na verdade estou exagerando
pois já evoluímos nos diálogos.
Conseguimos conversar
como se estivéssemos no MSN:
ela está; eu, nem no computador.
Então pergunto algo, tipo, você vai jantar?
Depois de dois minutos, mais ou menos,
ela responde: vou.
Mas é um vou com todas as letras.
Aí faço a seguinte: quando?
Depois de certo silêncio: já.
É só esperar o já acontecer
(jantando sozinho de preferência).
Tentei descobrir qual o link que deveria clicar,
para ela me aparecer inteira, ao vivo,
mas não consegui; ninguém soube me ajudar.
Foi então que pensei
nos outros maridos de esponautas,
e imaginei que poderiam saber
como lidar com suas esposas,
já que provavelmente teriam passado
o que eu estava passando.
Surgiu a idéia genial: reunir esses maridos.
Estou criando a "MIA"
Maridos das Internautas Anônimos.
Uma associação sem fins lucrativos
com objetivos voltados a ajudar
e prestar esclarecimentos aos maridos
quanto a problemas advindos
da "era do computador de esposas",
tais como:
financeiros,
emocionais,
psicológicos
e eventualmente psiquiátricos.
Os maridos que se interessarem
devem clicar no link
com o e-mail da minha esposa
e preencher a ficha.
Não adianta mandar e-mail para mim
pois fico tanto tempo sem vê-los,
que sempre os perco
por cancelamento do provedor.
É que nunca sobra uma horinha vaga
(ou minutos) no computador.
O mais difícil, na organização da "MIA",
está sendo arranjar
um meio se nos reunirmos,
uma vez que já existem maridos
de todas as partes do Brasil,
e até alguns espalhados pelo mundo,
interessados em participar.
Estou com um péssimo presságio
que acabaremos nos reunindo via internet,
pelo ICQ, ODIGO,MSN, YAHOO, COMVOCÊ, etc.
Espero apenas que nunca
em salas de bate-papo.
Fazer o quê, né?
Coisas do mundo globalizado!

P.S.
Este texto só chegará a tuas mãos
o teu e.mail também, né?
se tua esposa se lembrar de abrir .

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"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." Clarisse Lispecto

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"Dava-se na sua voz o mesmo que na sua dança...Era indefinível, era encantador; o quer que fosse de puro e de sonoro, de aéreo, por assim dizer, de alado(...)Dir-se-ia umas vezes, uma louca, outras, uma rainha (...) respirava sobretudo alegria e parecia cantá-la como a ave, serena e descuidada." Victor Hugo, descrevendo a cigana Esmeralda (Notre-dame de Paris, 1831)